Lunda Norte: território, decisão e futuro

Encerramos mais um dia intenso em Angola, desta vez em Lunda Norte. Uma província com peso histórico, econômico e simbólico. A terceira maior do país, conhecida mundialmente pelo ouro e pelo diamante, mas cujo maior ativo está além do subsolo: território, gente e futuro.

A chegada já sinalizava o que viria pela frente. Fomos recebidos ainda na pista por uma comitiva do governo provincial. Mais do que protocolo, foi um gesto claro de abertura ao diálogo e à construção conjunta. Lunda Norte tem uma governadora excepcional, a Sra. Filomena. Preparada, firme, sensível ao desenvolvimento e, ao longo desse processo, deixou de ser apenas uma autoridade para se tornar uma grande amiga.

Antes mesmo das reuniões oficiais, fomos acolhidos por jovens que expressaram a cultura local. Música, dança, identidade viva. Cada território conta sua história à sua maneira. Lunda Norte se apresentou com dignidade, força e beleza. Entrei na roda, dei alguns passos, brinquei com os jovens. Não foi encenação. Foi respeito. Desenvolvimento que não dialoga com a cultura local nasce torto.

Seguimos para uma longa reunião com todo o secretariado do governo provincial. O foco foi claro: aquisição de terras, desenvolvimento agrícola e pecuário, geração de emprego e construção de uma base econômica sólida a partir do território. Mas o que marcou o dia não foram discursos prontos. Foram os debates.

No trajeto até as áreas de terra, dentro da van, no campo, no meio das plantações, travamos discussões técnicas e políticas sobre clima, latitude, regime de chuvas, logística, vocação do solo, acesso, escoamento e sustentabilidade. Houve debate até sobre a presença de metais no solo. Algo absolutamente estratégico para qualquer projeto agropecuário de longo prazo.

Paramos, descemos, entramos nas plantações, vimos o milho de perto, tocamos a terra. Não sou agrônomo. Não sou especialista em agro. Na verdade, não sou especialista em quase nada. Mas sou especialista em ouvir, aprender e reunir gente que sabe mais do que eu. Isso faz toda a diferença.

Esse aprendizado vem do time que estamos construindo. Em especial do Reinaldo, conhecido no Brasil como o “rei do porco”, um dos maiores nomes da suinocultura mundial. Ele é mais do que um técnico brilhante. É um estrategista do campo. Reinaldo é sócio desse programa que estamos implementando em Angola, com vocação continental. A Suinobras é referência no Brasil, mas o projeto aqui vai além da suinocultura. Estamos falando de um ecossistema agropecuário, que envolve criação animal, agricultura, milho, soja, feijão e tudo o que o solo permitir. Sem improviso. Sem achismo.

Nada será feito sem estudo profundo de solo, clima e vocação territorial. Não estamos construindo um projeto de curto prazo. Estamos desenhando uma estratégia de desenvolvimento.

Fechamos o dia com a consolidação de 60 mil hectares adquiridos em nome da Favela Holding. É um número expressivo. E uma responsabilidade ainda maior. Terra não é apenas ativo financeiro. É compromisso social, econômico e político.

Ao longo desses dias, tenho dado entrevistas coletivas à imprensa angolana. Faço isso com tranquilidade. É nosso dever prestar contas à sociedade sobre o que estamos construindo, quem são os parceiros, quais são os objetivos e qual o impacto real do projeto. Estamos falando de desenvolvimento da base da pirâmide a partir da agricultura. De geração de renda. De soberania alimentar. De dignidade.

Em meio a tudo isso, é impossível não refletir sobre a própria trajetória. Quem diria que aquele menino da favela do Sapo, em Senador Camará, que viveu nas ruas de Madureira e passou por abrigos públicos, estaria hoje debatendo desenvolvimento com ministros e governadores de um país.

É possível.

Nada disso é acaso. É construção coletiva, tempo, escuta e trabalho duro. E, acima de tudo, a convicção de que favela não é carência. É potência.

Seguimos com muito trabalho pela frente, muitos desafios e muitas entregas. Sigo tranquilo. Pelo time. Pelo método. Pela seriedade de cada passo.

Vamos em frente.
Viva Angola.
Viva a África.

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